(por Victor Neves)
“Tarefa dada é tarefa cumprida”. Quando recebi o email comunicando que era hora de inaugurar uma coluna periódica “sobre cultura” no Blog do CQP, e que eu a devia escrever, disciplinadamente dei o “sim”. Mesmo sabendo que escrever qualquer coisa durante o carnaval, principalmente se os leitores tendem a ser em grande parte do Rio, é uma temeridade... Se você não é o Guilherme Vargues, conhecido contador de história ali do Grajaú, em cuja verve algo banal como pegar um ônibus ou comer um pastel chinês se torna um acontecimento de valor universal, corre o sério risco de escrever bobagem. Ou melhor: só alguma coisa que não esteja à altura daquela “pequena revolução” que acontece todo ano, e que portanto ninguém vai perder seu precioso tempo lendo.
Claro: durante esses 5 dias (pra quem é de 5 dias) as horas de repouso valem ouro. Pra boa parte dos potenciais leitores disso aqui, quase que só dá tempo de tomar uma brahma (em ocasiões especiais um chope, se ele não estiver custando 20 pau na cidade olímpica), uma cachacinha e/ou aquela especial caipirinha de cebion e... dormir – pra quem é de dormir.
Mas, vem cá: que história é essa de “pequena revolução”? Afinal, não seria o carnaval carioca só um punhado de dias em que o playboy puxa a menina pelo cabelo e violenta um beijo? Em que a classe média mais esclarecida do planeta extravasa o seu lado mais rude, tentando grosseiramente realizar um ou outro desejo reprimido – que não tem cu pra realizar ao longo do resto do ano? Em que a turistada suada enche a cara de cerveja e de “caipirosca” (até hoje não entendo exatamente o que é isso...) e mergulha fundo no turismo sexual em Copacabana ou na fantasia alienada do desfile na vitrinizada e inacessibilizada Marquês de Sapucaí?
E, aliás, tudo isso não aconteceria enquanto a velha e boa massa trabalhadora passa ali os dias e as noites trabalhando? Vendendo uns churrascos de gato e o latão 3 x 10 (sendo que do jeito que a coisa vai, esse ano vai ter muito “latão 1 x 10 e lamba os beiços”), vendendo água da torneira, vendendo o que tiver pra vender... Pois então, o carnaval não seria isso? O carnaval não seria a festa da carne pra quem pode pagar pela carne, e festejada em cima da carne dos que não podem? Na verdade... Também. Mas não só. E, correndo o saudável risco da ingenuidade: nem prioritariamente.
Sem chance de esboçar aqui e agora uma “história do carnaval”, reivindicando esta manifestação “autêntica” da “cultura popular”. Sobre isso – e também contra isso – muita tinta já correu e muito se polemizou. Vou só levantar uma bola, e na falta de tempo e espaço vai como analogia mesmo: achar que o carnaval no Rio é só isso é mais ou menos como achar que as passeatas que vêm ocorrendo desde junho do ano passado são só “o gigante acordou”.
Pano rápido, intervalo paragrafar providencial.
A moça aqui em frente já me olha desconfiada, pensando que não, que não se sustenta. Afinal, não se compara bloco de carnaval com passeata. Afinal, o carnaval não tem conteúdo político algum. Afinal, não haveria ali nenhum projeto de poder em disputa. Claro: o carnaval é todo o contrário de uma boa e politizada passeata... E com certeza o novo Robocop do Cabral, ou a assessoria de carnaval da prefeitura, agora me aplaudiram.
Tá bom pra terminar minha primeira coluna “sobre cultura”. Aplaudido por quem manda, eu, que tenho juízo, continuo a bater esse papo com você depois do desfile do Comuna que Pariu.
Até lá.