30 de jan. de 2015

O Comuna entrevista Marina Iris

Por Caio Martins e Filipe Boechat

"Lugar de mulher é... é onde ela quiser", diz o nosso samba de 2015. E Marina Iris felizmente escolheu brilhar também com o Comuna Que Pariu!. Uma das cantoras do nosso querido bloco, vive um momento especial em sua carreira com o lançamento de seu primeiro disco. Nessa entrevista, conversamos sobre seu trabalho, sua trajetória, política, carnaval e muito mais. Confira aí!

CQP! ▶Marina, muito obrigado por nos conceder essa entrevista. Você poderia começar falando um pouco do seu trabalho e sua trajetória no samba e na militância para os nossos leitores?

Minha carreira começou quando, em 2007, na Uerj, fiz amizade com Manuela Trindade, compositora e percussionista que cursava Letras comigo, e Maurício Massunaga, violonista que cursava Ciências Sociais na época. Descobrimos que três aspectos de nossas vidas nos uniam: a esquerda, o samba e o futebol. A partir daí, foram muitos ensaios, debates e jogos do Mengão. Com eles, entrei na música de cabeça e comecei a levar a coisa a sério. As apresentações iam do Diretório Acadêmico Lima Barreto aos palcos da Lapa. Das canjas nos shows da Nina Rosa, em Vila Isabel, às homenagens a grandes compositores do samba.

A antiga parceria: Maurício Massunaga (violão),
Manuela Trindade (pandeiro) e Marina Iris
Lembro que na Copa de 2002 - a esta altura a parceria com Tomaz Miranda, cavaquinista de primeira, já era fato - fizemos uma apresentação com diversas músicas que tratam de futebol. O debate acalorado sobre se deveríamos ou não cantar o tema da Copa de 70 faz parte do meu repertório de histórias de bar até hoje. O desfecho: decidimos cantar, mas falar alguns minutos sobre a ditadura brasileira. E a conversa com o público deu molho à roda. Seguimos assim, compondo, cantando, debatendo.

Ano passado, organizamos, junto com músicos militantes de diferentes partidos de esquerda e de movimentos populares, algumas rodas de samba na porta da Câmara Municipal, como forma de protestar e de nos juntarmos aos camaradas que ali estavam ocupando e reivindicando.


Em outro momento, contra a remoção da Favela do Metrô, recorremos aos versos de Nelson Cavaquinho, Cartola, Nelson Sargento, Carlos Cachaça e toda a comunidade cantou. E a criançada pegou latinhas vazias e pedrinhas para fazer seus caxixis improvisados.

Os eventos foram um barato e mais uma vez a música e o povo deram seu recado. E continuam dando com o Bloco do Nada, com o Bando, o Bonde - frente artística de esquerda e o Comuna que Pariu, dos quais faço parte, com o povo do Samba Brilha, que luta pelo carnaval com dignidade para os blocos tradicionais do Rio, e tantos outros.

Com essa turma toda, a música põe na pauta temas muito importantes. Destaco o clipe contra a homofobia que o Bando elaborou quando um jogador do Corinthians foi hostilizado por tirar uma foto dando um selinho em outro homem [confira aqui]. E o Comuna, que esse ano vai pra rua com o enredo "Lugar de mulher é onde ela quiser". Serão centenas de pessoas cantando: "machismo é porrada e piada sutil". A boa ironia está aí: o samba, que assim como o esporte bretão sempre foi dominado por homens heterossexuais, reclamando o direito das mulheres e à diversidade sexual. Vai dar pé.

Assim como deu pé a conversa informal que tive, em 2012, com Andréa, uma grande amiga, e sua família, no quintal de sua casa em Oswaldo Cruz, onde fazíamos rodas de samba com frequência. O papo sobre militância e a cena independente, ao invés de nos apontar as dificuldades, nos motivou, nos fez pensar que os amigos comprariam a ideia de organizarmos eventos para arrecadar fundos para a produção de meu primeiro disco.

E assim foi, juntamos as forças. Em 15 de dezembro, após um bingo, duas feijoadas e uma rifa, fiz um lindo lançamento do meu CD no Teatro Rival. Contando com muitas participações, inclusive a da bateria do Comuna que Pariu.

O repertório juntou tudo aquilo que eu já cantava, muitas músicas de novos compositores, de gente que está chegando e se articulando para que o samba continue forte: João Martins, Buchecha, Rafael de Moraes, Manu e Tomaz. E muito mais.

O carnaval, a resistência negra e a autonomia da mulher ficaram a cargo de Moacyr Luz e Aldir Blanc, em "Vitória da Ilusão" e "Rainha Negra", e Mário Lago e Erasmo Silva, em "Gilda".


Marina Iris em show no Teatro Rival.
CQP! ▶ O Comuna Que Pariu! existe desde 2009, quando foi fundado pela UJC. Como foi seu encontro com o CQP e de que forma se integrou ao Bloco?

Amigos filiados ao PCB me apresentaram o bloco há 3 anos. De cara me agradou muito a proposta do bloco: pular carnaval defendendo pautas de esquerda.
De lá pra cá, vim estreitando cada vez mais meus laços com a turma.

CQP! ▶ Além do CQP, há outros blocos que se engajam e se solidarizam com as lutas dos trabalhadores no Brasil: Bloco do Nada, Apafunk, Samba Brilha, Prata Preta e outros. Como você vê este fenômeno no carnaval do Rio de Janeiro e no mundo do samba?

No carnaval sempre houve crítica, escracho, subversão de uma ordem. Muitos blocos, menos ou mais politizados, mantêm ou mantiveram por muito tempo esse espírito.

É certo que a coisa foi ficando mais limitada com o tempo, não sei se por cansaço, falta de interesse na política ou pelo rumo que o carnaval de rua foi tomando mesmo. Muitos blocos grandes (mais volumosos), que iam pra cima de governos, batiam em corruptos etc., passaram a exercer outra função.

Acho bastante natural o surgimento ou o fortalecimento de blocos como Comuna, Samba Brilha, Mulheres Rodadas, Bloco do nada no contexto de hoje, após jornadas de junho, aquecimento de pautas como o combate ao machismo, racismo, homofobia.

Marina Iris e Buchecha comandando
 a roda de samba do CQP! (mai/2014).



CQP! ▶ Há muita diferença entre cantar no palco das casas de show do Rio de Janeiro e nos blocos de carnaval? A preparação e a técnica são as mesmas ou é muito diferente?

Há muita diferença. A fantasia é outra. Sempre que posso, não bebo em show. Em blocos, bebo o quanto posso.

CQP! ▶ Você, além de cantora, também é compositora. De onde costuma vir as inspirações para suas músicas?

Não sou compositora, compositora. Acho que minha inspiração deve vir de muito longe, por isso que vem só às vezes. (risos) Funciono bem no coletivo, não consigo pensar começo, meio e fim de uma música sozinha. Só consegui duas vezes. Por isso adoro fazer samba de bloco. Geralmente junta um monte de gente.

CQP! ▶ O enredo do Comuna para este ano é: "Lugar de Mulher é... é onde ela quiser!". Você foi uma das compositoras desse samba que já repercute nas redes sociais. Como o machismo aparece no mundo do samba e como você pensa que devemos combatê-lo?

O machismo está em toda parte. No mundo do samba não seria diferente. É evidente que o samba, assim como o futebol, por exemplo, parece, aos olhos de muitos, um reduto mais seguro do machismo, um lugar onde ele pode e deve ser preservado. Isso dificulta muito a construção de uma outra realidade.

É o recorrente "é assim que tem que ser".

Quando pergunto a qualquer amigo do samba por que há tão poucas mulheres compositoras, em geral, a resposta é o silêncio.

Por outro lado, nunca vi esse assunto sendo tão discutido no meio como vejo hoje. E isso me anima bastante. Acho que é por aí mesmo, a melhor forma de combate ao machismo e a outras formas de opressão é não tirar o debate da pauta.

Pensar o machismo não pode ser entendido pelos rapazes como uma ameaça aos homens. É uma ameaça a privilégios, não aos homens. Aliás, eles são muito mais interessantes sem alguns privilégios idiotas.

CQP! ▶ O Comuna se apresenta como um bloco com perspectiva classista. Poderíamos dizer que você é uma "trabalhadora da cultura". Você concorda com esse ponto de vista?

Hum... A princípio, concordo. Mas tenho que pensar mais sobre tudo isso. Tem tanta coisa aí.

CQP! ▶ Muita gente vê o resultado de um trabalho artístico, como a música, apenas como expressão de um talento individual, mas sabemos que ele exige muito esforço e envolve bem mais pessoas do que a artista que sobe ao palco. Como costuma ser a preparação dos shows antes de você subir ao palco?

A preparação é sempre coletiva, não tem como ser diferente. Acho que em caso nenhum.

No meu caso, há envolvimento de amigos de áreas diferentes. Gosto muito de pensar em como posso me juntar aos que bebem comigo em situações de trabalho. Como podemos construir coisas boas.

Marina Iris no Teatro Rival
CQP! ▶ Você gravou um belo CD recentemente de forma, como costumamos dizer, independente. Como foi esse processo?

Foram dois processos: o de arrecadação e o de execução. Ambos contaram com muita colaboração de amigos. Muita gente se doou. Emília fez muita feijoada para arrecadar fundos. Músicos fizeram rodas de samba no amor. Amigos cederam espaços em suas casas e prédios.

Assim a coisa andou lindamente.

CQP! ▶ Seu CD trouxe jovens instrumentistas e compositores, por assim dizer, de primeira viagem. Mas, apesar disso, ou talvez por isso mesmo, o repertório ficou de primeira. Como foi a escolha das músicas? E o processo de gravação? Você pode contar um pouco pra nós como foi?

Neste trabalho, gravei muita música que já cantava em show. Na seleção do repertório, me preocupei em apresentar músicas de novos compositores e canções inéditas de compositores mais antigos no samba.

Gravei músicas da Manuela Trindade, do Bil-Rait Buchecha, do João Martins, do Rafael de Moraes, do Tomaz Miranda.

E também incluí Delicada Portela, de Celso Lima e Sergio Cruz, Empório, da Gisa Nogueira e do Paulo Cesar Feital e Eram dois ou mais, uma música que tem 30 anos, do Feital em parceria com o Claudinho Azeredo.

CQP! ▶ Você pode dizer pra gente quais serão seus próximos passos na música?

Vou cantar muito por aí. É só o que sei.

CQP! ▶ Pra fechar essa nossa entrevista: ansiosa pro dia 16 de fevereiro?

Bastante. Estou contando os dias mesmo. E preparando minha fantasia de Angela Davis.

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E aí? Gostou da entrevista? Ficou com vontade de ouvir um pouquinho do trabalho de Marina Iris? Então se liga nesse vídeo:


29 de out. de 2014

O Comuna pega o Bonde!

Ontem à noite, dia 28/10, cerca de 40 pessoas, entre elas artistas plásticos, músicos, produtores culturais, midiativistas e integrantes dos mais diversos coletivos reuniram-se na Praça Tiradentes, Rio de Janeiro, para discutir e encaminhar a construção de uma frente artística de esquerda.
De acordo com o músico Thiago Kobe, a ideia surgiu da percepção, compartilhada por muitos dos que estiveram ali presentes, de que arte e cultura são instrumentos de comunicação bastante eficazes que podem e devem ser empregados para a integração dos movimentos culturais espalhados pelo Rio de Janeiro.
Tomás Ramos, também músico, observou ainda que o Bonde (ao que tudo indica o nome definitivo desse novo espaço) não pretende ser um novo coletivo, mas antes o espaço de articulação política dos movimentos, coletivos e indivíduos desejosos de contribuir para a produção de arte e cultura numa perspectiva crítica.
A reunião transcorreu num clima de bastante camaradagem e foi recheada de propostas. Bil-Rait Buchecha, do nosso querido Comuna, sugeriu, entre outras coisas, a organização de um festival que reunisse diferentes linguagens artísticas. Sugeriu-se, ainda, intervenções pontuais em espaços públicos como forma de interferir na cotidianidade da cena urbana.
Enfim, o fato é que a reunião formou o Bonde e o Bonde formou bonito. Se você também se interessa por arte e cultura, produz arte e cultura ou deseja contribuir para a produção de arte e cultura numa perspectiva crítica e combativa, o Comuna recomenda fortemente esse espaço, que pelo pouco que se viu, mostrou que tem tudo pra dar certo.
Como na próxima terça-feira ocorrerá o último encontro do Ocupa Lapa, ficou decidido que o Bonde irá se reunir na próxima QUARTA-FEIRA, às 19h00, no mesmo local: ali na Praça Tiradentes, em frente à Estudantina (Centro Cultural Estudantina Musical, Praça Tiradentes, 79, Centro). Os demais encontros do Bonde, no entanto, voltarão a ser às terças-feiras, ao menos até o fim desse ano.
Para saber mais sobre a pauta do Bonde, os encaminhamento e os futuros grupos de trabalho, ou simplesmente seguir esse Bonde, acesse a página no facebook.

16 de out. de 2014

O Comuna apóia a luta dos educadores!

No comecinho da noite dessa última quarta-feira, dia 15/10, a bateria do CQP! uniu-se ao coro dos profissionais da Educação do Rio de Janeiro. Reunidos em frente à Câmara Municipal pelo Dia Nacional de Luta em Defesa da Educação Pública, estivemos ombro a ombro com aqueles que são como a gente: de festa, mas sobretudo de luta!

Após as falas de ativistas de movimentos sociais, entidades sindicais e representantes de partidos políticos, intercaladas com poesias e depoimentos, nossa bateria embalou os presentes ao som do nosso samba deste ano: O COMUNA CANTA AO BRASIL: A REVOLUÇÃO FOI A COPA QUE PARIU!

Mestre Buchecha comandou mais um embalo da subversão

A empolgação ao redor da bateria mostrou que ainda ecoa na cabeça de muita gente a alegria de nosso desfile e a indignação diante dos abusos cometidos antes e durante a Copa do Mundo.

O ato foi convocado pelo FEDEP-RJ. Estiveram presentes: ANDES seção RJ, ADUFRJ, Asduerj, SEPE, FEDEP, UJC, UC, além de diversos outros movimentos da área da Educação.

Conforme se pode ler na página do evento no Facebook, o ato foi parte das deliberações do Encontro Nacional de Educação, que decidiu pela realização de atos dessa natureza no mês de outubro em todo Brasil. Como lembram também os organizadores do evento, o dia 15/10 marca, no Rio de Janeiro, a mobilização de mais de 100 mil educadores e lutadores, enfrentada pelas autoridades com forte repressão e com a continuidade do processo de desmonte da Educação pública.

O CQP! aproveita a oportunidade para dizer que sempre se somará à luta dos profissionais da Educação contra a criminalização dos movimentos sociais, pelo direito efetivo à greve, pela autonomia pedagógica, pela valorização do educador e por verbas públicas para uma Educação pública, gratuita, laica, de qualidade e que sirva aos interesses populares.

Agradecemos imensamente o convite e parabenizamos os organizadores e presentes pelo ato. E seguimos em frente, batucando junto à classe trabalhadora na grande avenida que vai dar na sua emancipação!

9 de set. de 2014

Manifesto por uma Frente Artística Anti-Capitalista

Todo ser humano tem potencial para produzir arte, todos somos potenciais artistas. Se uma criança recebe areia, ela esculpe um castelo. Se recebe tinta, ela pinta um dinossauro. Se estimulada com música, ela inventa sua própria dança. Mas adultos, a maioria de nós ou não produz mais arte ou não a produz como gostaria de fazer. Por que isso acontece?

Basta pensarmos no nosso dia a dia pra darmos de cara com dois motivos. De um lado, alguém que trabalha oito ou mais horas por dia, gastando umas boas horinhas a mais pra ir e voltar de seu local de trabalho, infelizmente não tem muito tempo para dedicar a outras atividades, ainda que goste muito delas. Nessa situação, apreciar e conhecer ou mesmo criar arte aparece como algo “supérfluo”, não passando de um “hobby” pra ser exercitado entre uma jornada e outra, e, se der, em algum espacinho de tempo no fim de semana... Além disso, um monte de gente simplesmente não frequenta teatros, shows, exposições ou certos pagodes e estádios porque se tornam pesados demais no orçamento (na sociedade em que vivemos tudo, até as tradições mais populares, vai virando mercadoria).

O outro motivo está ligado ao que chamamos de indústria cultural. E aí tratamos da situação dos trabalhadores da cultura (como os “artistas” ou os “produtores culturais”). Todo o fruto de sua criatividade acaba servindo pra alimentar esta indústria; e nisso há uma perda de sentido sobre o que fazem, pois cada vez mais se tornam meros executores levados a produzir algo que não é determinado por sua própria vontade, mas que se encaixe em um padrão vendável. Uma canção precisa ser “hit”, para vender; um quadro precisa ter o estilo que abra as portas pra galerias importantes, para vender; uma peça de teatro deve repetir os "lugares comuns" e efeitos fáceis, para vender. A cultura é reduzida a um negócio, cumprindo a função social de fornecimento de “matéria-prima criativa” para certas indústrias nas quais os bens produzidos têm valor ou não de acordo com as tais “leis do mercado”. Até mesmo o sucesso de uma obra artística tende a ser medido pelo lucro que ela proporcionou! Isso está presente tanto nas listas que tratam por melhores filme do ano aqueles com maior bilheteria, quanto na indústria do jabá radiofônico, na qual as músicas primeiro são pagas para serem as mais tocadas nas rádios e depois se tornam "magicamente" presentes no assovio de qualquer ouvinte. Quantas vezes já não vimos repetidas essas velhas práticas?

Tudo isso se dá porque vivemos em uma sociedade em que nós trabalhadores não controlamos os meios necessários para garantir as nossas próprias vidas. Nas sociedades capitalistas, cada indivíduo depende de comprar no “mercado” todas as suas necessidades: sua comida, suas roupas, sua moradia, seu deslocamento, só podendo satisfazê-las se puder pagar. A quantidade de fome que você tem simplesmente não é levada em conta pelo dono do supermercado, assim como a enorme "fome cultural” que você tem não comove nem um pouco o proprietário da casa de shows – ou mesmo que o comova, isso não o levará a distribuir bilhetes! Isso gera certas situações que seriam inaceitáveis se não estivéssemos tão acostumados com elas, e os exemplos são incontáveis – basta refletir meio segundo na porta de um supermercado qualquer, e verificar, na calçada, à porta de sua entrada, quantas vezes não estavam ali pessoas em situação de rua pedindo ajuda.

No mercado de arte, vão se formando campos autorizados a dizer o que é e o que não é bom ou válido. A arte, para ser reconhecida como arte, precisa do consentimento dos produtores, dos curadores, dos comissários de exposição, dos conservadores de arte, das gravadoras, das estações de rádio, dos grandes chefs de cozinha, das editoras etc. Neste contexto, a arte dos pobres, dos negros e dos indígenas é diminuída pelos que detêm “o poder da palavra” ao status inferior de “artesanato”. Essa oposição entre artesanato e arte expressa todo o desprezo dos mandarins da cultura mercantilizada pelo trabalho manual e pela cultura popular. A arte parece estar ao acesso de todos, mas o que está ao alcance é somente o seu consumo para quem puder pagar! E quanto à criação, essa fica só pros artistas “eleitos” pelo mercado em um de seus diversos nichos (inclusive o mercado acadêmico, considerando que a universidade se torna cada vez mais mercantilizada), deixando à margem inúmeros músicos, compositores, arranjadores, poetas, pintores, atores, diretores, num autêntico desperdício de capacidades criativas-sociais que este modelo simplesmente é incapaz de aproveitar.

É no contexto da competição entre os próprios artistas, uns contra os outros, por um lugar no rol daqueles “eleitos”, que surge a imagem falsa do “gênio”. Este seria o ser “melhor do que os outros”, que tem “mais talento” individual e por isso “merece aparecer”, sendo celebrado do mesmo modo na dança, na música, na culinária ou no futebol. Ok, entendido, mas... o que seria de um bom ator se ele atuasse sempre sozinho?! Não é questão de negar as aptidões individuais. Sim, elas existem, mas são muito mal aproveitadas numa sociedade em que todos os criadores (o que é exatamente o mesmo que dizer todos os trabalhadores, quer manuais quer intelectuais) são postos em eterna competição uns contra os outros por um lugar no mercado. Nesta sociedade, o egocentrismo radical vai ocupando o lugar da camaradagem, a pretensa autoria individual ocupa o lugar da criação coletiva, e com isso a imensa maioria da população, inclusive dos artistas, perde – enquanto alguns poucos grandes “produtores”, na verdade proprietários ou acionistas de grandes empresas culturais, extraem seus lucros milionários e mantêm o tal do mercado de arte azeitado e operando.

As jornadas de junho de 2013 trouxeram à tona certa insatisfação social, com milhares de pessoas indo às ruas reivindicar o atendimento de suas necessidades. Este novo contexto não deixou de influenciar o mundo da cultura e da arte. O carnaval de 2014 foi marcado por blocos, marchinhas e sambas politizados e de protesto, as manifestações se tornaram tema de diversos filmes documentários, peças de teatro ou poesias e as fotografias dos manifestantes e da repressão policial rodaram o mundo. Essa tomada de consciência pode ser um bom começo de um questionamento geral, mas, para impedir que essa saudável energia questionadora se disperse, vimos a necessidade de começar pra já a construir uma alternativa. Uma alternativa ao poder político que nos apresenta um jogo de cartas marcadas e nos manda sair das ruas (com a “ajuda” da polícia) e votar em algum dos candidatos dos grandes partidos que representam sempre os mesmos interesses. Uma alternativa aos governos que nos pedem para aguardar passivamente que eles apresentem a “solução” para nossos problemas. Uma alternativa, enfim, a toda uma forma de organização social capitalista que exige que os trabalhadores empreguem o melhor de suas energias vitais na produção de mercadorias para depois descansar consumindo passivamente sem protestar. Isso quando lhes é dado descansar...

Uma primeira alternativa seria lutar por uma mudança da política cultural do Estado que rompesse com os seus atuais marcos mercadológicos, cujos principais exemplos são a Lei Rouanet (dinheiro público de renúncia fiscal que é gerenciado por empresas privadas) e o estímulo ao empreendedorismo dos trabalhadores da arte (estimulando-os a fazer projetos para captar recursos no mercado), e investisse em um amplo aparato público e gratuito de formação, produção e distribuição de arte. Mas pensamos que é necessário ir além e criar organizações culturais e artísticas próprias dos trabalhadores. Já existem diversas e o Bloco Comuna Que Pariu! é um bom exemplo de um grupo que produz uma arte anticapitalista por fora da indústria cultural. Mas o trabalho de grupos isolados, por melhor que seja, tende a não ter muita repercussão em uma sociedade na qual a circulação de informações e da arte é dominada pelos grandes monopólios empresariais.

Por isso, propomos a formação de uma frente anticapitalista que afirme que a arte não deve ser mercadoria, mas expressar necessidades coletivas e apontar para a necessidade de criação de relações sociais que garantam a vida. Como primeiro passo nesta direção estamos formando um Comitê de Cultura pelo Poder Popular para discutir e produzir arte e cultura por fora da lógica da mercadoria, buscando construir uma alternativa cultural própria dos trabalhadores que seja capaz de enfrentar a indústria cultural e caminhar no sentido da socialização da produção cultural e artística. Venha organizar conosco este Comitê!

Proposta inicial de eixos programáticos para a atuação do Comitê:

1º Participar das lutas gerais da classe trabalhadora, inclusive colocando nossa arte ao seu serviço;

2º Garantir e avançar os direitos dos trabalhadores da arte e da cultura;

3º Desmercantilizar a produção e o acesso à arte e a cultura;

4º Construir uma alternativa cultural dos trabalhadores que seja capaz de enfrentar a indústria cultural (o poder popular na cultura);

5º Articular uma frente artística anticapitalista que aponte para a necessidade de criação de relações sociais que garantam a vida;

6º Apoiar e aprender com outras experiências culturais e artísticas da classe trabalhadora, nacionais e internacionais;

7º Venha sugerir e debater conosco!

14 de ago. de 2014

A “questão cultural” e a Palestina

(por Victor Neves)
(aos amigos Alexandre Magno, Elídio Marques, Isabel Mansur e Márcio Longo)

A palavra “cultura” evoca o conjunto dos conhecimentos sobre o mundo, assim como o acervo das objetivações produzidas no sentido de intervir sobre ele. Sendo criação puramente humana a partir de sua interação social e do metabolismo entre humanidade e meio ambiente, se opõe a “natureza” na medida em que esta, em suas leis últimas, é exterior ao homem. Ou seja: diferentemente da natureza, sobre a qual o homem intervém sem que seja capaz de criar nem de alterar suas leis fundamentais, a cultura é criação exclusivamente humana. 

Por isso mesmo é curioso ver o uso que se faz desta palavra ao se tocar em pontos políticos embaraçosos, sobre os quais em geral o senso comum tende a ser evasivo e não querer “se comprometer”. É exatamente este o caso da Palestina. Ou melhor: da política colonial do Estado de Israel em relação à nação palestina. 

Quem nunca ouviu, durante uma conversa em que aparece o assunto “Palestina-Israel”, o comentário de que aquele seria um tema muito “delicado” devido à presença de tradições religiosas milenares em confronto? A continuação do argumento – que em última é utilizado por quem não quer se posicionar sobre o problema, ou por quem se envergonha de sua posição pró-Israel – é clássica: tratar-se-ia de uma questão “cultural”, dessa “rivalidade milenar entre judeus e árabes”, coisa difícil de resolver e de explicar sem um profundo conhecimento de suas religiões, de suas culturas... Vamos desmontar este mito.

Apresentado assim, o raciocínio opera uma inversão curiosa. Como lembrei na abertura deste texto, “cultura” se opõe a “natureza” justamente na medida em que é o ser humano que cria aquela primeira no processo mesmo de seu desenvolvimento social. Pois bem: a apresentação da suposta “rivalidade milenar” como base para os massacres reincidentemente perpetrados por Israel desde 1948 na região (observe-se que o fenômeno tem pouco mais de 60 anos, nada tendo de “milenar”) é, na verdade, uma tentativa disfarçada de naturalizar sua política colonial, de justificá-la como algo que sempre foi assim (afinal, estaríamos diante de um problema milenar, afirmam os “entendidos”...) e que, portanto, sempre será, restando a nós lamentar. Como pega mal se referir a massacres coloniais como algo natural, se afirma que seriam algo cultural, invertendo o sentido da palavra “cultura”, que passa a fazer referência a leis imutáveis, rígidas (com o perdão da palavra: “talmúdicas”), que não seria possível modificar – em suma, “cultura” passa a significar “natureza”! E não é qualquer natureza: nesta bizarra utilização do termo, “cultura” passa a fazer referência a algo que seria uma pretensa “natureza humana”, em que o homem seria o lobo do homem, um bicho egoísta, incapaz de conviver com o diferente e disposto a tudo para se defender dele.
 
A verdade é que a questão Israel-Palestina, e principalmente estas operações que o Estado sionista israelense vem executando na região de Gaza desde 2006, nada têm de “questão cultural” – a não ser por suas óbvias consequências político-culturais, tornando a população da Faixa de Gaza mais desesperada e radicalizando-a, e pelos componentes culturais que sempre acompanham questões coloniais. Vejamos brevemente em argumentos e números* porque esta questão é pura e simplesmente uma questão colonial – e como tal deve ser combatida sem trégua. 

Gaza é uma das duas regiões que compõem os territórios palestinos, ocupadas a partir de 1967 pelo Exército de Israel – a outra é a Cisjordânia. Com seus 1,8 milhão de habitantes distribuídos por 362 km quadrados, é uma região muito densamente povoada, com cerca de 4.500 hab./km quad. Sua principal cidade, a Cidade de Gaza, conta com uma das maiores densidades demográficas do mundo – o que, aliás, significa que qualquer ataque aéreo a esta cidade fará necessariamente muitas vítimas civis, fato que Israel negligencia imperialmente. 
 
Israel, após se retirar militarmente da faixa de Gaza em 2005, impôs sobre ela um pesadíssimo embargo ou bloqueio econômico a partir de 2006. Este bloqueio é de tal ordem que Gaza se converteu em uma espécie de “grande prisão a céu aberto”, por sinal murada (!), com apenas dois acessos por terra em uso (Erez e Kerem Shalom): um por onde podem entrar e sair pessoas e outro por onde podem entrar e sair mercadorias. Os acessos por mar e por ar são bloqueados, controlados draconianamente pelas forças armadas israelenses, e o aeroporto da região foi destruído. Nesta situação, todo e qualquer produto que entre e saia de Gaza deve passar por... Israel! Qualquer semelhança com aqueles nossos velhos conhecidos latino-americanos, os “pactos coloniais”, infelizmente não é mera coincidência. Israel procedeu assim: retirou os colonos, mas manteve na prática o estatuto colonial da região.

O resultado: a taxa de desemprego em Gaza é de cerca de 40%; cerca de 70% da população depende de alguma ajuda “humanitária” como, por exemplo, da doação de alimentos, para sobreviver; Gaza só dispõe de fornecimento de energia elétrica de 8 a 12 horas por dia (!), o que afeta diretamente a hospitais, escolas e demais instituições públicas, para não falar da população civil em seu dia-a-dia; a zona permitida por Israel para a pesca é de apenas 3 milhas náuticas Mediterrâneo adentro, quando segundo as Nações Unidas as zonas mais piscosas estão 8 milhas náuticas afastadas da costa – sendo a pesca uma das principais atividades econômicas em Gaza...

Não à toa, dentre as principais reivindicações do Hamas estão: possibilidade de construção de um aeroporto; possibilidade de construção de um porto; extensão da zona de pesca. Todas as três relativas ao embargo! E o principal argumento do Hamas para não aceitar um cessar-fogo permanente é... que Israel não aceita suspender o embargo!
 
A razão é clara: suspender o embargo seria abrir mão da condição colonial da Gaza. Como sabemos muito bem acompanhando exemplos de embargos pelo mundo – dos quais talvez o mais conhecido no Brasil seja aquele imposto pelos EUA à Cuba socialista –, os embargos costumam causar muito mais danos e mortes do que qualquer ação militar. No caso palestino, de Gaza em particular, a combinação entre embargo e ações militares periódicas (já são quatro grandes operações  militares desde 2006) gera o seguinte quadro: 500.000 pessoas deslocadas de suas casas (1/3 da população...), 240.000 residindo em abrigos da ONU; milhares de moradias destruídas; grande parte da capacidade industrial do país neutralizada; quase metade das terras agrícolas do país arrasada; milhares de palestinos mortos, civis em sua grande maioria, dos quais 1.939 somente nesta última ofensiva militar - contra 67 mortos israelenses, dos quais apenas 3 civis. 
  
Neste contexto, em que a manutenção da política colonial só pode ser feita mediante o extermínio sistemático da população que resiste, não soam nada exageradas as palavras de Eduardo Galeano, com as quais encerramos este texto**: “Desde 1948, os palestinos vivem condenados à humilhação perpétua. Não podem nem respirar sem permissão. Perderam sua pátria, suas terras, sua água, sua liberdade, seu tudo. Nem sequer têm direito a escolher seus governantes. Quando votam em quem não devem votar, são castigados. Gaza está sendo castigada. (...) E o desespero, a espera pela loucura suicida, é a mãe das bravatas que negam o direito à existência de Israel, gritos sem nenhuma eficácia, enquanto a muito eficaz guerra de extermínio está negando, há anos, o direito à existência da Palestina. Já resta pouco da Palestina. Pouco a pouco, Israel a está apagando do mapa. Os colonos invadem e depois deles os soldados vão restabelecendo a fronteira. As balas sacralizam a remoção, como legítima defesa. Não existe guerra agressiva que não diga ser guerra defensiva”.

Paris, 14 de agosto de 2014.

* As fontes de onde foram extraídos os números neste texto foram as versões eletrônicas dos seguintes jornais: Le Monde; Libération; Le Point; The Washington Post; The Wall Street Journal.
** O texto de Eduardo Galeano (“Si yo fuera palestino”) foi publicado pelo órgão salvadorenho ContraPunto, estando disponível na internet.

29 de jul. de 2014

Palestina: de como desaprender a amar as bombas...

(por Victor Neves)

(Inicio a redação deste texto numa terça-feira 29 de julho de 2014 às 18h horário de Paris.)

Na virada do século XIX pro XX, uma palavra de ordem nascida na Alemanha fez escala na Rússia e de lá se espalhou pro mundo. A verdade, diziam os comunistas a partir dos velhos Lenin e Lassalle, seria revolucionária.

Tempo vai, tempo vem, temos hoje alguns casos para pôr o lema à prova. Tomemos o caso da Palestina. São agora 18h06. Devido à urgência, é necessário conhecer a hora: a cada meia hora, a cada dez minutos ou a cada minuto os números citados neste texto podem simplesmente aumentar muito, assim, de uma hora pra outra, como se se tratasse de metros percorridos em uma caminhada, de flores colhidas num pátio ou de grãos de areia simpaticamente amontoados em um castelinho por uma menina, mas não: trata-se do número de mortos por Israel no “conflito” com a Palestina – que melhor seria chamar de massacre, mesmo sabendo como esta palavra é por vezes usada de modo exagerado.

Pois bem: se a verdade é revolucionária, como é que Israel consegue fazer o que está fazendo ali? Os números, agora às 18h09 do dia 29 de julho de 2014, não deixam muita margem a dúvida: segundo o Wall Street Journal, veículo de comunicação insuspeito de “simpatia pelo Hamas”, o número de mortos palestinos na agressão israelense que já vem em sua terceira semana é 1.156, a imensa maioria dos quais CIVIS. Enquanto isso, o número de mortos israelenses é de... 56! Sendo 53 militares e TRÊS civis... Isso mesmo: 1.100 a menos, o que em termos percentuais significa que temos uma “guerra” em que cerca de 95% dos mortos pertencem a um lado e 5% ao outro. Assim, seria adequado deixarmos de lado essa neutralidade hipócrita de falar em “conflito”, porque simplesmente não é disso que se trata. Afinal: que tipo de “guerra” ou “conflito” é esse que se desenrola numa situação de assimetria deste tamanho? Realmente, a imagem de tanques contra pedras, num caso desse, nada tem de exagerada – ainda mais se considerarmos que Israel efetivamente considera como ataques terroristas também o lançamento de pedras contra seu território, suas edificações ou seu exército.

É preciso afirmar com todas as letras: esta ofensiva de Israel, para além de uma óbvia e horripilante coleção de assassinatos, é mais um capítulo de uma guerra colonial “à moda antiga”, com direito à discriminação oficial dos “quase-cidadãos” palestinos pelo Estado de Israel e à invasão das terras dos palestinos pelos colonos israelenses, engendrando obviamente reações. Neste cenário, apoiar a ofensiva de Israel é antes de tudo apoiar o colonizador contra os que lutam pela descolonização.

Pelo mundo vêm pipocando as manifestações de apoio à Palestina e ao povo de Gaza, o que é muito importante mas que até o momento não conseguiu frear o ímpeto agressivo israelense. Mesmo o presidente da ONU, este homem que tanto ama silenciar sobre conflitos por aí pelo mundo afora, mesmo este “paladino da paz” chamado Ban Ki-moon se pronunciou condenando “os exageros” de Israel. Claro... O problema, afinal, são os exageros... E eu, daqui do meu cantinho, fico me perguntando se o problema não seria outro, talvez: mesmo quando, daqui a uns dias ou umas semanas, a sanha assassina de Israel for finalmente freada (desculpem usar esse tipo de palavra, mas realmente não encontro outras), quem vai devolver as vidas àqueles 1.156 mortos? (Às 18h22 do dia 29 de julho, mas sabemos por óbvio que este número vai aumentar.)

Agora são 19h12 aqui. Provavelmente de hoje pra amanhã mais gente será morta em Gaza. Nos últimos dias, Israel já atacou – e reconheceu sem pudor, pois afinal “é necessário desbaratar o Hamas” – um abrigo humanitário da ONU e da Cruz Vermelha, o Ministério da Fazenda palestino e a única grande usina de geração de energia elétrica em Gaza. Como as linhas de energia Israel-Gaza estão cortadas pelos bombardeios de Israel, imaginem o cenário desolador: gente morta e gente morrendo, hospitais e abrigos sem energia, bombas caindo, gente morta e gente morrendo, economia completamente desorganizada com o ministério destruído, bombas caindo, tanques avançando, gente morta e gente morrendo... E chorando... E lutando.

A verdade, hoje, é revolucionária?

Me parece que não exatamente...

Revolucionárias podem ser as pessoas. São revolucionárias quando resolvem procurar verdades, compreender o mundo e agir corretamente, engajando-se contra “massacres humanitários”, bombas assassinas e guerras que se destinam não a libertar povos de opressões coloniais (que podem ser, essas sim, justas), mas a perpetuá-las. Revolucionárias são as pessoas quando param de lamentar a “irracionalidade humana”, clamar pelo “afinal vamos ver o outro lado” e decidem tomar seus destinos nas mãos. Revolucionários são os homens e as mulheres que, ao ver um palestino chorando com sua vida destruída pelas bombas e a brutalização cada vez maior dos soldados israelenses que não sabem mais encarar os palestinos como gente, não aceita isso e, não aceitando, se move!

Encerro esta coluna, se me permitem, fazendo um convite com cara de convocação: diante do arbítrio e do massacre a que temos assistido, e que os habitantes de Gaza têm diretamente vivido, não esperemos “que a verdade resolva as coisas”, porque ela mesma não resolve nada. Verdade por verdade, o massacre vai continuar, e a responsabilidade de cada um que não se opuser ativamente a ele também.

Diante do que está acontecendo em Gaza, a única atitude verdadeira é lutar contra. Nesse sentido, os homens e mulheres de Gaza precisam de que sejamos revolucionários.

Paris, 29 de julho de 2014, 19h36.
1.156 palestinos mortos, e contando...

25 de jun. de 2014

Conversando sobre futebol...

(por Victor Neves)
(ao amigo e camarada Daniel Reis)

“Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.”
 Carlos Drummond de Andrade

Há quem diga que certas coisas não se discutem. Gosto, futebol, religião e, pros mais ingênuos (será?), política. Quem sustenta isso costuma se basear em dois argumentos, que muitas vezes vêm juntos: “há coisas muito pessoais, da conta apenas do indivíduo”; ou “há coisas que não se explicam, apenas se sentem ou se intuem”...
De outro lado, há quem queira discutir isso tudo não exatamente da maneira mais aberta. É alguém que tem tanta certeza de suas próprias posições, que sabe (ou às vezes acha que sabe...) que elas são tão superiores às outras, que encara o debate como um meio líquido e certo de convencer os outros. Nesse caso, o debate não é exatamente um debate: é uma “propaganda em diálogo”. Essa posição pode, em certas situações, ser a contraface da outra, de quem não quer conversar porque não quer se expor à dúvida.

Um exemplo de um assunto apaixonante e que muitas vezes é alvo da “proteção contra o debate” é o futebol. Esporte por excelência do mundo contemporâneo, essa atividade, que já foi de lazer e é cada vez mais de entretenimento, é um dos assuntos preferidos de pelo menos algum momento em 9 entre 10 conversas de mesa de bar, movimenta milhões de pessoas e trilhões de dólares pelo mundo, emociona mesmo quem não acompanha mas, de rabo de olho, vê um “drible da vaca” ou um “balão” e nunca mais esquece... Entretanto, quando se propõe conversar a sério sobre o assunto, sair do nível do “quem é o time da favela ou o da burguesia pó de arroz” (pra não falar de apelidinhos motivados por concessões à homofobia etc.), no mais das vezes se viram as caras, se fecha o tempo e paira no ar aquele sentimento de “não me venha querer atrapalhar de comemorar o golaço do Neymar só porque ele ganha milhões enquanto a Fifa apoia e os governos empreendem remoções massivas no Brasil da Copa”.

Essa defensiva ao debate aparece até mesmo entre gente de esquerda, que quer mudar o mundo inteirinho mas quando vai falar sobre a Copa do Mundo se sente obrigado a começar sempre pelo protocolar “É claro que eu amo futebol, mas” etc. Sinceramente: nesse papo sobre futebol, não me parece que o problema seja se a gente “ama” ou “não liga” pro esporte que dizem que é bretão... Me parece que o centro do debate está em outro ponto.

O ponto é, pegando emprestada a bela palavra ali do Drummond: gostar de futebol precisa ser sinônimo de ceder à mistificação? Dito de outro jeito: é necessário participar da simulação de alegria indissociável do futebol de negócios para gostar de futebol?

O problema é que não participar tem consequências, que não são necessariamente insignificantes. Em escala crescente: você pode ser considerado “meio estranho” ou “muito pessimista” por sua família ou pelos seus amigos do bar ou daquela sua pelada de terça depois do expediente; pode também ser “mal compreendido” por seus eleitores potenciais, caso você seja candidato a algum cargo eletivo – e não são poucos os que eu já vi, mesmo na esquerda que se quer revolucionária, começando a falar da Copa pelo refrão sagrado “Amo futebol, e o povo também, mas...”, como se fosse necessário pedir licença para denunciar arbitrariedades só porque estão relacionadas ao futebol;  ou pode mesmo ter problemas sérios com patrocinadores, com a imprensa ou com clubes empregadores caso você seja um jogador – ou um técnico – de futebol.

Neste último caso, são notórias as histórias do técnico João Saldanha ou do meia Afonsinho, gente que buscou conciliar certos valores cidadãos a uma atuação profissional no futebol e que pagou o preço desta posição. Mas isso foi em outro tempo...

Hoje em dia, a situação é a seguinte: mesmo que você queira se posicionar e ser cidadão, faça-o desde que isso não envolva o futebol. São exemplares as posturas de alguns atletas profissionais: o jogador camaronês (que aliás fez a opção por ser camaronês num contexto em que essa opção é louvável e deve ser elogiada) Benoit Assou-Ekotto, considerado “brutalmente honesto” pela imprensa porque afirma recorrentemente que o futebol é um emprego como qualquer outro, e que por isso ele joga apenas pelo dinheiro, enquanto trabalha “contra a pobreza na África” junto à ONU etc.; o português Cristiano Ronaldo, que saiu em defesa do povo palestino e se recusou a trocar de camisa após o jogo contra Israel, alegando não trocar camisa com assassinos; os argentinos Messi, Mascherano e Lavezzi, que gravaram recentemente declarações em apoio às Avós da Praça de Maio argentinas.

Nos três casos, por mais louváveis que sejam as posições dos jogadores em termos de cidadania fora dos campos, no que se refere ao lado de dentro das quatro linhas não há e não pode haver debate. E, é claro, não só: a tudo que se refere ao espetáculo: patrocinadores, remoções, negociatas, desrespeitos aos direitos humanos, mal emprego do dinheiro público, repressão policial a movimentos sociais... Aceitar esse bloqueio significa aceitar que o futebol é naturalmente este futebol, que sempre foi assim e por isso assim continuará – ou pelo menos se resignar com isso. Significa mais: significa aceitar um pedacinho do pacote que diz que a sociedade em que vivemos é naturalmente deste jeito, que assim sempre foi e sempre será...

Já do lado de cá, me parece que querer transformar essa sociedade tem que ter implicações em como se aprecia o “velho esporte” (chinês?)... Não é possível ter uma alegria pura e inocente, mesmo ao se ver um gol bonito como aquele do Fernandinho contra o Camarões. No futebol de negócios, infelizmente toda alegria carrega consigo um bom peso de sujeira e custa os sonhos de muita gente que não está ali no campo de chuteiras. E pra quem quer viver sem pensar nesse tipo de problema, é claro que isso sempre é possível – mas exige uma maciça dose de auto-enganação. Mais interessante não seria enfrenta-lo de frente e trabalhar pra resgatar do horror nossas alegrias e nossa capacidade de se emocionar até com coisas banais, como a habilidade humana de trabalhar em grupo e dominar uma bola?

Pra finalizar, deixo uma historinha pra reflexão: na virada dos anos 80 pros 90, quando eu era criança e a ditadura tinha acabado havia poucos anos, eu tinha uma professora (de Estudos Sociais ou de Moral e Cívica...?) que contava que a prova de que o futebol estava acima das divergências é que ela sabia de histórias de “presos” (leia-se: militantes seviciados) e “servidores do Estado” (leia-se: torcionários) que, na cadeia, deixavam de lado os “problemas” (leia-se: ...) para assistir juntos aos jogos da Copa de 70 e torcer pela pátria de chuteiras. Já me perguntei muitas vezes como aquela professora conseguia não sentir o horror profundo contido no que ela narrava...

11 de jun. de 2014

Uma BRochada mundial...


(por Victor Neves)

a Luís Carlos “SCopa” e Manú “Não Vai Ter Cuíca”

“Macaco velho não põe a mão em cumbuca”. Não tenho certeza se o problema é que não sou velho (sim, deve ser isso!), ou se é só simples teimosia... O fato é que eu, seguindo o sempre bom exemplo da presidenta, decidi escrever sobre o obrigatório “assunto do momento”.

Como me encontro, neste então, algo afastado do domicílio, seguirei a via prudente (eu, como todo comuna, sou prudente): não vou tentar falar do que não tô vivendo (afinal, só a experiência autoriza, não?), mas vou dividir um pouco com o leitor no Brasil as impressões da Copa aqui em Paris. Quem sabe se alguma coisa não complementa a outra, encaixa e vai que o texto serve...

A primeira coisa que me impressionou muito por aqui foi que não tenho visto muita gente festejando o início da Copa. Claro que eu não esperava uma festa com algazarras intermináveis, como a que vocês evidentemente estão fazendo por aí pelo nosso país do futebol... Afinal, eles aqui são mais contidos, respeitemos as diferenças. Mas, vem cá: pelo menos as ruas enfeitadas, os carros com bandeirinhas coladas e as paredes grafitadas com o desenho dos jogadores e frases pra empolgar, isso eu achava que ia ver!

Pra ser justo, vi um momento Copa outro dia, sim: umas crianças lá do prédio, e foi até bonito... Francesinhas, branquinhas, elas jogavam bola na chuva, uniforme tricolor arrumadinho, com os nomes tradicionais de uns jogadores franceses tipo Pogba, Benzema, Sakho e Mavuba (cada sobrenome complicado que têm esses franceses, hein?). Vendo aquela pelada “à la française”, quase me emocionei quando veio a lembrança de que estou num país onde a luta pela inclusão e contra todas as formas de violência e preconceito foi vencida – mesmo com esses sobrenomes complicados dessa gente. E me emociono de novo quando me dou conta de que estamos em plena batalha pra chegar a este importante patamar no Brasil, com nossos sobrenomes simples e democráticos, e o legado da Copa vem justamente pra... Mas não, hoje eu só falo da França.

Pois então... Lá em casa, o senhor de 75 anos que mora comigo comentava essa semana que estava um pouco decepcionado. Ele me dizia que nas Copas anteriores, o evento era motivo de satisfação, de alegria e de orgulho. Que a seleção, quando ele era menino, era considerada assim uma coisa meio sagrada sabe? Representava a nacionalidade, e estava acima de governos, de partidos e de interesses de qualquer grupo. Que o povo francês amava sua seleção...

Ele não sabe dizer muito bem o que aconteceu. Diferente da cerejeira lá do pátio, que ele adora e que todo ano dá igual no verão, o povo francês parece que não tá mais tão empolgado... Apesar de continuar amando o futebol (e fazendo piadinhas infames sobre o 3x0 mais de 10 anos depois, para minha grande aporrinhação), parece que alguma coisa não tá dando aquela liga de antigamente.

Bem... Mas eu sou brasileiro, então longe de mim tentar explicar o que andei vendo por aqui... Afinal, no meu país a coisa é outra, e a alegria é a prova dos nove. Certo?
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PS: poeminha sobre o assunto, de destacado autor tão contemporâneo. Ouvi dizer que tava pela França quando escreveu. Êita mundo pequeno, sô...

Foi-se a Copa
(Carlos Drummond de Andrade)

Foi-se a Copa? Não faz mal.
Adeus chutes e sistemas.
A gente pode, afinal,
cuidar de nossos problemas.
Faltou inflação de pontos?
Perdura a inflação de fato.
Deixaremos de ser tontos
se chutarmos no alvo exato.
O povo, noutro torneio,
havendo tenacidade,
ganhará, rijo, e de cheio,
A Copa da Liberdade.
(Publicado no Jornal do Brasil de 24 de Junho de 1978)

26 de mai. de 2014

O que você faria? Parte IV.

por Victor Neves

“Agora, amadureço a questão.
Nós prontamente solidários com a memória
(Compromisso sem perigos)
E o desespero irreparável dos mortos,
Se àquele tempo presentes e vivos,
Como veríamos o III Reich?”
José Carlos Capinam – Inquisitorial.

04. "Intimismo à sombra do poder" e manutenção da ordem

Aqui estávamos na última coluna: a passagem, estimulada – e, até certo ponto, provocada – pela ditadura, de uma cultura hegemonicamente “de contestação” a uma “de constatação” reatualizou no Brasil a velha tendência ao intimismo à sombra do poder.

E de que se trata isso, afinal?

A ideia, trabalhada por Carlos Nelson Coutinho em 1972, é a seguinte: os intelectuais, “descrentes da possibilidade de influir decisivamente sobre as mudanças sociais (...), tendem a evadir-se da realidade concreta, a colocar-se num terreno aparentemente autônomo, mas cuja autonomia é respeitada precisamente na medida em que não se põem em jogo as questões decisivas da vida social”. A referida postura “intimista” pode perfeitamente se combinar com um inconformismo declarado, com um “mal-estar subjetivamente sincero diante da situação social dominante” e diante das condições em que se leva a própria vida. Este foi o caso, por exemplo, de boa parte da assim chamada “poesia marginal” e de parte do cancioneiro produzido por alguns dos herdeiros do tropicalismo após 1968.

O intimismo à sombra do poder, argumenta o analista, é muito comum em países como o Brasil em que as transformações sociais e políticas (mesmo as mais profundas) se deram geralmente “pelo alto”, combinando os acordos entre elites dirigentes com o impedimento da participação política ativa da classe trabalhadora. Afinal, nestes países a história tende a aparecer como algo “que vem de fora”, que é “feito pelos grandes”, e sobre o qual não adianta buscar influir. Houve um ensaio de reversão desta tendência ao intimismo à sombra do poder na virada para os anos 1960, com a mobilização massiva de trabalhadores do campo e da cidade que exigiam participar ativamente da vida política brasileira. Os intelectuais, notando que a realidade efetivamente se movia, tenderam a se radicalizar, e boa parte se ligou ativamente ao processo de lutas então em curso. A produção cultural brasileira passou a refletir e buscar influir sobre uma realidade que se move e pode ser transformada. Este deslocamento está na raiz da “inteligência excepcional” que atingiu o país no início dos anos 60, quando a vida cultural brasileira se afastou de seu velho intimismo à sombra do poder, se enriquecendo.

Tal processo foi abortado pela ditadura empresarial-militar de 1964, e a conclusão da passagem do Brasil à “modernidade capitalista” se deu, pelas mãos dos militares (mas em nome do grande capital), mais uma vez pelo alto e ativamente comprometida com o redesenho de nossa vida cultural, preparatório para a “modernização” socioeconômica vindoura.

Quanto a nossos intelectuais... É preciso ter em mente que a produção cultural “intimista” raramente apoia diretamente a ordem de coisas existente. Entretanto, há diferentes maneiras de se comprometer com a ordem vigente.

Por um lado, se pode apoiá-la afirmando-a. Trata-se de louvá-la explicitamente ou de negar apenas aspectos muito superficiais, comprometendo-se ativamente com o status quo. É o que fazem, no Brasil e alhures, os chamados “grandes meios de comunicação” como a Rede Globo, a revista Veja e congêneres. Infelizmente, chega-se mesmo ao ponto de mentir para sustentar barbaridades como o massacre cotidiano a que são submetidas as populações mais pobres, a repressão brutal a manifestações políticas, a privatização de serviços públicos etc.

Por outro lado, se pode apoiar o existente negando-o. Isso mesmo: pode-se apoiar o que existe através de sua negação aparentemente radical. Se se nega o mundo todo em seu conjunto, se se o nega abstratamente, se se o nega retirando desta negação seu conteúdo historicamente determinado, cai-se na apologia indireta do que existe – afinal, negando-se tudo se nega também a possibilidade de trabalhar pela transformação de algo1.

Esta segunda maneira de aceitar o que existe (de apoiá-lo indiretamente, através de sua negação aparente) é perfeitamente compatível com uma postura de protesto resignado nos marcos do intimismo à sombra do poder.

05. E você? O que você faria?

Aqui chegamos ao ponto que motivou o início desta pequena série de textos... Eles vêm sendo publicados entre dois “grandes eventos”, intimamente relacionados e que dizem muito sobre a vida no Rio de Janeiro e no Brasil de hoje: a Copa do Mundo, prestes a começar, e a remoção da Favela da Telerj, da qual imagino que quem está lendo este texto ainda se lembre.

A questão é: como a “opinião pública” brasileira se tem posicionado sobre os acontecimentos em questão? Quem tem se colocado contra as barbaridades ora em curso? Quem compreendeu a urgência da situação? E mais: quem se diz contra é consequente com essa posição? Como vai, no Brasil de hoje, o velho intimismo à sombra do poder reatualizado pela ditadura empresarial-militar? Teria ele algo a ver com Copas e Olimpíadas?

Com estas perguntas se encerra a pequena série “O que você faria?”. Com elas, com o poema abaixo (não por acaso, exatamente de 1964) e com esta última pergunta: e você? O que você está fazendo agora?

INQUISITORIAL
(José Carlos Capinam – 1964)

I
Cúmplices da comoção moderna,
Galhofamos no teatro e no cinema
Ante o III Reich.

Galhofamos do desencontro
Entre discurso e realidade.

(Mas a perda do sincrônico
Se dá por nossa memória
Ou pelo dedo de Chaplin.

Ao tempo real, eram ambos coerentes:
Discurso e realidade.)

II
Quando um soldado capenga
Surgir em cena,
Não compreenda, e se compreender,
Não ria – porque não estamos
Ante um soldado nem ante o III Reich.

Quando um tanque se precipitar
Da ponte,
Não cante, e se cantar,
Não dance – porque não estamos
Ante a firmeza do tanque e a verdadeira ponte.

E quando um gueto se sublevar
E for morto heroicamente,
Não comente, e se comentar,
Não glorifique – porque não houve heróis,
Só houve homens no III Reich.

E, ademais, não se diga
Indigno o III Reich.
Porque não houve indignidades,
Só houve o tempo.
O tempo não tem adjetivos: é ou foi e faz-se.

III
Agora, amadureço a questão.

Nós prontamente solidários com a memória
(Compromisso sem perigos)
E o desespero irreparável dos mortos,
Se àquele tempo presentes e vivos,

Como veríamos o III Reich?

IV
(Para responder, não te transfiras
A cômodo, como agora,
Busca adquirir a cidadania alemã
E depois, estável, responde:

Ao curso de fuzis e verdades da época
– considerando o risco de tua estabilidade –
Operário ou proprietário da Mercedes Benz,

O que farias no III Reich?)

V
Em nós o tempo é o mais humano,
E hoje de homem não temos senão o tempo ganho,
Fração de um tempo maior
Que a vagar se compõe, tão árduo.

Por isso pergunto:
Em todos os tribunais passados,
Que lado ocuparíamos

Pois que somos mas não somos ante o tempo
E também seus acidentes
Históricos e geográficos,
As estações a carência e os meses?

Se ainda fosse abril,
O que faríamos sendo em tempo do III Reich?

VI
Agora que estimamos
A incerteza
Ante o III Reich;

Agora que estimamos
Menos perigosa
A participação da memória

E muito menos eficaz;
Pergunto: tu, ante o presente,
Como te defines ao que será passado?

Há urgência de resposta, antes que a noite chegue.

Carregarás fardos para evitar
(Repara que o rio corre e a noite vem como onda)
Ou deixarás que apenas sejamos o tempo
E irreparável memória?

VII
Como existir e ser ante o III Reich
E qualquer um outro tempo de inquisição?

Diante escolha dada sem senões:
Vida ou absolutamente nada,
O nada mais roído,
O nada mais raspado,
Sem pontes ou rios, sem rios, sem pontes
Às fugas e navegações?

Ao dizermos sim, estamos com eles.
Não, e nos perderiam de tudo, mesmo de nossa intimidade,
E, na praça,
Sorririam de nossa solidão, nossa extrema solidão, nossa solidão na morte,
Consequência deste caminho de contradição.

(Quando semelhante escolha
Nos vierem pedir,
Que coisa diremos
Se só temos a vida,
A necessidade de preservá-la
E a compulsão de defini-la?

O que agir, se o que agimos
Nos define a vida
E a consciência
Desta mesma vida
Ante seus momentos
E ela mesma ainda?)

Ah, como louvamos o tempo
Que nos põe distantes,
Só importando em memória
A nossa escolha e saída.

VIII
(Como nenhum roteiro são
As navegações do barco,

Não há previsões que possam conceber o que seja
Anterior ao seu ato.

Qual a determinação da cidade
E do caminho ideal de abordagem

Não evitam a pedra
Calmaria e tempestade.

Portanto, ainda mais se complica a questão
Do que ser ante o III Reich.)

IX
Nada a perguntar
Se esquemática, fatal e somente

Judeu fosse judeu
E operário, operário.

E não como são:
Eles e, inclusive, o III Reich.

(Ao existir nos pomos, às vezes,
Cúmplices da contradição.

De outra forma, nada seria dramático,
A simples previsão do roteiro salvaria o barco.)

X
Pois, sendo judeu ou operário
O que fazer ante o III Reich?

Se pretensa vinculação mais ampla, de homem,
Te impede de responder

Com vinculação real de raça ou classe,
Onde não se é bom ou mau homem,

Mas mau negociante ou bom operário,
Lembra-te do acordo de ato e consciência que possui o III Reich.

Então, como te farias um homem
Ante o III Reich?

(Isto não é tão simples como aplaudir ou chorar,
Comprometido com Chaplin.)

XI
Tenho medo da imaginação
E de todas as travessias
Onde me possa superar a correnteza do rio.
Sinto medo de mim solto às divagações,
Onde não me determino.
(Mas que faria se já não fosse outono
E já não estivesse na outra margem do rio?)

Dou graças aos que passaram
E submergiram.  Bendigo os que se comprometeram
Com o erro, para que eu não tivesse
De vacilar quanto ao lugar de vau
Para atravessar este rio
Da existência, tão largo, tão humano e extensamente largo,

E arrancar o fruto do outro lado.

XII
Não quis dizer que a tudo justifica o tempo:
Fora, fazê-lo, assaz temerário.
Nem tentei um poema para desesperar:
Diverge o intento.  Quero dizer que o tempo não reflui
E inexiste chance de se provar a resposta
Do que seríamos ante o III Reich, mãos de SS ou meras mãos de inocente,
Participação mais grave que a dos que fizeram por bom senso
Ou interesse indefensável.

Escrevi para então,
Aos que dizem não posso, tenho limitações,
Posso ser posto de lado, à margem de direitos e comodidades,
Ou aos que têm dúvida de que a mudança é ótima.
Escrevi aos lúcidos, aos que mais rápido entendem o símbolo
E outra qualquer linguagem, aos que, entretanto, calam.
Acuso este bom senso de salvar-se
Roubando balsas ao barco
Que se tomou para viagem.

Mas tenho certeza de que, se apenas
Esses existissem, ainda amargaríamos o III Reich,
Como fruto constante
Na boca:

Fruto que não se come nem se joga fora.

Escrevo e sei que a todo tempo houve outros,
Com estes aprendo e me comovo,
E mesmo que soçobre o barco num relativo naufrágio,
Me mantenho atento às perseguições do porto.




1 Um exemplo banal: alguém vê a polícia, na televisão, removendo com brutalidade a Favela da Telerj (ou Pinheirinhos, ou tantas...) e comenta algo como “é sempre a mesma coisa, esta maldade do ser humano (ou ‘do brasileiro’) me deixa realmente triste”. Essa pessoa, por mais que esteja negando subjetivamente o existente (“isto me faz mal, me deixa triste”), o está aceitando como natural (“sempre foi assim, assim é, e assim sempre será”, “os brasileiros são assim mesmo” e, portanto, não há o que fazer...). Um caso de apologia indireta do existente em um produto cultural brasileiro recente é o do filme Tropa de Elite 2 (a culpa é “do sistema” ou “dos políticos”, e como eles “sempre são corruptos” só resta lamentar). Muitos casos podem ser encontrados na produção cultural brasileira posterior ao AI-5.