25 de jun. de 2014

Conversando sobre futebol...

(por Victor Neves)
(ao amigo e camarada Daniel Reis)

Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
 Carlos Drummond de Andrade

Há quem diga que certas coisas não se discutem. Gosto, futebol, religião e, pros mais ingênuos (será?), política. Quem sustenta isso costuma se basear em dois argumentos, que muitas vezes vêm juntos: “há coisas muito pessoais, da conta apenas do indivíduo”; ou “há coisas que não se explicam, apenas se sentem ou se intuem”...
De outro lado, há quem queira discutir isso tudo não exatamente da maneira mais aberta. É alguém que tem tanta certeza de suas próprias posições, que sabe (ou às vezes acha que sabe...) que elas são tão superiores às outras, que encara o debate como um meio líquido e certo de convencer os outros. Nesse caso, o debate não é exatamente um debate: é uma “propaganda em diálogo”. Essa posição pode, em certas situações, ser a contraface da outra, de quem não quer conversar porque não quer se expor à dúvida.

Um exemplo de um assunto apaixonante e que muitas vezes é alvo da “proteção contra o debate” é o futebol. Esporte por excelência do mundo contemporâneo, essa atividade, que já foi de lazer e é cada vez mais de entretenimento, é um dos assuntos preferidos de pelo menos algum momento em 9 entre 10 conversas de mesa de bar, movimenta milhões de pessoas e trilhões de dólares pelo mundo, emociona mesmo quem não acompanha mas, de rabo de olho, vê um “drible da vaca” ou um “balão” e nunca mais esquece... Entretanto, quando se propõe conversar a sério sobre o assunto, sair do nível do “quem é o time da favela ou o da burguesia pó de arroz” (pra não falar de apelidinhos motivados por concessões à homofobia etc.), no mais das vezes se viram as caras, se fecha o tempo e paira no ar aquele sentimento de “não me venha querer atrapalhar de comemorar o golaço do Neymar só porque ele ganha milhões enquanto a Fifa apoia e os governos empreendem remoções massivas no Brasil da Copa”.

Essa defensiva ao debate aparece até mesmo entre gente de esquerda, que quer mudar o mundo inteirinho mas quando vai falar sobre a Copa do Mundo se sente obrigado a começar sempre pelo protocolar “É claro que eu amo futebol, mas” etc. Sinceramente: nesse papo sobre futebol, não me parece que o problema seja se a gente “ama” ou “não liga” pro esporte que dizem que é bretão... Me parece que o centro do debate está em outro ponto.

O ponto é, pegando emprestada a bela palavra ali do Drummond: gostar de futebol precisa ser sinônimo de ceder à mistificação? Dito de outro jeito: é necessário participar da simulação de alegria indissociável do futebol de negócios para gostar de futebol?

O problema é que não participar tem consequências, que não são necessariamente insignificantes. Em escala crescente: você pode ser considerado “meio estranho” ou “muito pessimista” por sua família ou pelos seus amigos do bar ou daquela sua pelada de terça depois do expediente; pode também ser “mal compreendido” por seus eleitores potenciais, caso você seja candidato a algum cargo eletivo – e não são poucos os que eu já vi, mesmo na esquerda que se quer revolucionária, começando a falar da Copa pelo refrão sagrado “Amo futebol, e o povo também, mas...”, como se fosse necessário pedir licença para denunciar arbitrariedades só porque estão relacionadas ao futebol;  ou pode mesmo ter problemas sérios com patrocinadores, com a imprensa ou com clubes empregadores caso você seja um jogador – ou um técnico – de futebol.

Neste último caso, são notórias as histórias do técnico João Saldanha ou do meia Afonsinho, gente que buscou conciliar certos valores cidadãos a uma atuação profissional no futebol e que pagou o preço desta posição. Mas isso foi em outro tempo...

Hoje em dia, a situação é a seguinte: mesmo que você queira se posicionar e ser cidadão, faça-o desde que isso não envolva o futebol. São exemplares as posturas de alguns atletas profissionais: o jogador camaronês (que aliás fez a opção por ser camaronês num contexto em que essa opção é louvável e deve ser elogiada) Benoit Assou-Ekotto, considerado “brutalmente honesto” pela imprensa porque afirma recorrentemente que o futebol é um emprego como qualquer outro, e que por isso ele joga apenas pelo dinheiro, enquanto trabalha “contra a pobreza na África” junto à ONU etc.; o português Cristiano Ronaldo, que saiu em defesa do povo palestino e se recusou a trocar de camisa após o jogo contra Israel, alegando não trocar camisa com assassinos; os argentinos Messi, Mascherano e Lavezzi, que gravaram recentemente declarações em apoio às Avós da Praça de Maio argentinas.

Nos três casos, por mais louváveis que sejam as posições dos jogadores em termos de cidadania fora dos campos, no que se refere ao lado de dentro das quatro linhas não há e não pode haver debate. E, é claro, não só: a tudo que se refere ao espetáculo: patrocinadores, remoções, negociatas, desrespeitos aos direitos humanos, mal emprego do dinheiro público, repressão policial a movimentos sociais... Aceitar esse bloqueio significa aceitar que o futebol é naturalmente este futebol, que sempre foi assim e por isso assim continuará – ou pelo menos se resignar com isso. Significa mais: significa aceitar um pedacinho do pacote que diz que a sociedade em que vivemos é naturalmente deste jeito, que assim sempre foi e sempre será...

Já do lado de cá, me parece que querer transformar essa sociedade tem que ter implicações em como se aprecia o “velho esporte” (chinês?)... Não é possível ter uma alegria pura e inocente, mesmo ao se ver um gol bonito como aquele do Fernandinho contra o Camarões. No futebol de negócios, infelizmente toda alegria carrega consigo um bom peso de sujeira e custa os sonhos de muita gente que não está ali no campo de chuteiras. E pra quem quer viver sem pensar nesse tipo de problema, é claro que isso sempre é possível – mas exige uma maciça dose de auto-enganação. Mais interessante não seria enfrenta-lo de frente e trabalhar pra resgatar do horror nossas alegrias e nossa capacidade de se emocionar até com coisas banais, como a habilidade humana de trabalhar em grupo e dominar uma bola?

Pra finalizar, deixo uma historinha pra reflexão: na virada dos anos 80 pros 90, quando eu era criança e a ditadura tinha acabado havia poucos anos, eu tinha uma professora (de Estudos Sociais ou de Moral e Cívica...?) que contava que a prova de que o futebol estava acima das divergências é que ela sabia de histórias de “presos” (leia-se: militantes seviciados) e “servidores do Estado” (leia-se: torcionários) que, na cadeia, deixavam de lado os “problemas” (leia-se: ...) para assistir juntos aos jogos da Copa de 70 e torcer pela pátria de chuteiras. Já me perguntei muitas vezes como aquela professora conseguia não sentir o horror profundo contido no que ela narrava...

11 de jun. de 2014

Uma BRochada mundial...


(por Victor Neves)

a Luís Carlos “SCopa” e Manú “Não Vai Ter Cuíca”

“Macaco velho não põe a mão em cumbuca”. Não tenho certeza se o problema é que não sou velho (sim, deve ser isso!), ou se é só simples teimosia... O fato é que eu, seguindo o sempre bom exemplo da presidenta, decidi escrever sobre o obrigatório “assunto do momento”.

Como me encontro, neste então, algo afastado do domicílio, seguirei a via prudente (eu, como todo comuna, sou prudente): não vou tentar falar do que não tô vivendo (afinal, só a experiência autoriza, não?), mas vou dividir um pouco com o leitor no Brasil as impressões da Copa aqui em Paris. Quem sabe se alguma coisa não complementa a outra, encaixa e vai que o texto serve...

A primeira coisa que me impressionou muito por aqui foi que não tenho visto muita gente festejando o início da Copa. Claro que eu não esperava uma festa com algazarras intermináveis, como a que vocês evidentemente estão fazendo por aí pelo nosso país do futebol... Afinal, eles aqui são mais contidos, respeitemos as diferenças. Mas, vem cá: pelo menos as ruas enfeitadas, os carros com bandeirinhas coladas e as paredes grafitadas com o desenho dos jogadores e frases pra empolgar, isso eu achava que ia ver!

Pra ser justo, vi um momento Copa outro dia, sim: umas crianças lá do prédio, e foi até bonito... Francesinhas, branquinhas, elas jogavam bola na chuva, uniforme tricolor arrumadinho, com os nomes tradicionais de uns jogadores franceses tipo Pogba, Benzema, Sakho e Mavuba (cada sobrenome complicado que têm esses franceses, hein?). Vendo aquela pelada “à la française”, quase me emocionei quando veio a lembrança de que estou num país onde a luta pela inclusão e contra todas as formas de violência e preconceito foi vencida – mesmo com esses sobrenomes complicados dessa gente. E me emociono de novo quando me dou conta de que estamos em plena batalha pra chegar a este importante patamar no Brasil, com nossos sobrenomes simples e democráticos, e o legado da Copa vem justamente pra... Mas não, hoje eu só falo da França.

Pois então... Lá em casa, o senhor de 75 anos que mora comigo comentava essa semana que estava um pouco decepcionado. Ele me dizia que nas Copas anteriores, o evento era motivo de satisfação, de alegria e de orgulho. Que a seleção, quando ele era menino, era considerada assim uma coisa meio sagrada sabe? Representava a nacionalidade, e estava acima de governos, de partidos e de interesses de qualquer grupo. Que o povo francês amava sua seleção...

Ele não sabe dizer muito bem o que aconteceu. Diferente da cerejeira lá do pátio, que ele adora e que todo ano dá igual no verão, o povo francês parece que não tá mais tão empolgado... Apesar de continuar amando o futebol (e fazendo piadinhas infames sobre o 3x0 mais de 10 anos depois, para minha grande aporrinhação), parece que alguma coisa não tá dando aquela liga de antigamente.

Bem... Mas eu sou brasileiro, então longe de mim tentar explicar o que andei vendo por aqui... Afinal, no meu país a coisa é outra, e a alegria é a prova dos nove. Certo?
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PS: poeminha sobre o assunto, de destacado autor tão contemporâneo. Ouvi dizer que tava pela França quando escreveu. Êita mundo pequeno, sô...

Foi-se a Copa
(Carlos Drummond de Andrade)

Foi-se a Copa? Não faz mal.
Adeus chutes e sistemas.
A gente pode, afinal,
cuidar de nossos problemas.
Faltou inflação de pontos?
Perdura a inflação de fato.
Deixaremos de ser tontos
se chutarmos no alvo exato.
O povo, noutro torneio,
havendo tenacidade,
ganhará, rijo, e de cheio,
A Copa da Liberdade.
(Publicado no Jornal do Brasil de 24 de Junho de 1978)

26 de mai. de 2014

O que você faria? Parte IV.

por Victor Neves

Agora, amadureço a questão.
Nós prontamente solidários com a memória
(Compromisso sem perigos)
E o desespero irreparável dos mortos,
Se àquele tempo presentes e vivos,
Como veríamos o III Reich?”
José Carlos Capinam – Inquisitorial.

04. "Intimismo à sombra do poder" e manutenção da ordem

Aqui estávamos na última coluna: a passagem, estimulada – e, até certo ponto, provocada – pela ditadura, de uma cultura hegemonicamente “de contestação” a uma “de constatação” reatualizou no Brasil a velha tendência ao intimismo à sombra do poder.

E de que se trata isso, afinal?

A ideia, trabalhada por Carlos Nelson Coutinho em 1972, é a seguinte: os intelectuais, “descrentes da possibilidade de influir decisivamente sobre as mudanças sociais (...), tendem a evadir-se da realidade concreta, a colocar-se num terreno aparentemente autônomo, mas cuja autonomia é respeitada precisamente na medida em que não se põem em jogo as questões decisivas da vida social”. A referida postura “intimista” pode perfeitamente se combinar com um inconformismo declarado, com um “mal-estar subjetivamente sincero diante da situação social dominante” e diante das condições em que se leva a própria vida. Este foi o caso, por exemplo, de boa parte da assim chamada “poesia marginal” e de parte do cancioneiro produzido por alguns dos herdeiros do tropicalismo após 1968.

O intimismo à sombra do poder, argumenta o analista, é muito comum em países como o Brasil em que as transformações sociais e políticas (mesmo as mais profundas) se deram geralmente “pelo alto”, combinando os acordos entre elites dirigentes com o impedimento da participação política ativa da classe trabalhadora. Afinal, nestes países a história tende a aparecer como algo “que vem de fora”, que é “feito pelos grandes”, e sobre o qual não adianta buscar influir. Houve um ensaio de reversão desta tendência ao intimismo à sombra do poder na virada para os anos 1960, com a mobilização massiva de trabalhadores do campo e da cidade que exigiam participar ativamente da vida política brasileira. Os intelectuais, notando que a realidade efetivamente se movia, tenderam a se radicalizar, e boa parte se ligou ativamente ao processo de lutas então em curso. A produção cultural brasileira passou a refletir e buscar influir sobre uma realidade que se move e pode ser transformada. Este deslocamento está na raiz da “inteligência excepcional” que atingiu o país no início dos anos 60, quando a vida cultural brasileira se afastou de seu velho intimismo à sombra do poder, se enriquecendo.

Tal processo foi abortado pela ditadura empresarial-militar de 1964, e a conclusão da passagem do Brasil à “modernidade capitalista” se deu, pelas mãos dos militares (mas em nome do grande capital), mais uma vez pelo alto e ativamente comprometida com o redesenho de nossa vida cultural, preparatório para a “modernização” socioeconômica vindoura.

Quanto a nossos intelectuais... É preciso ter em mente que a produção cultural “intimista” raramente apoia diretamente a ordem de coisas existente. Entretanto, há diferentes maneiras de se comprometer com a ordem vigente.

Por um lado, se pode apoiá-la afirmando-a. Trata-se de louvá-la explicitamente ou de negar apenas aspectos muito superficiais, comprometendo-se ativamente com o status quo. É o que fazem, no Brasil e alhures, os chamados “grandes meios de comunicação” como a Rede Globo, a revista Veja e congêneres. Infelizmente, chega-se mesmo ao ponto de mentir para sustentar barbaridades como o massacre cotidiano a que são submetidas as populações mais pobres, a repressão brutal a manifestações políticas, a privatização de serviços públicos etc.

Por outro lado, se pode apoiar o existente negando-o. Isso mesmo: pode-se apoiar o que existe através de sua negação aparentemente radical. Se se nega o mundo todo em seu conjunto, se se o nega abstratamente, se se o nega retirando desta negação seu conteúdo historicamente determinado, cai-se na apologia indireta do que existe – afinal, negando-se tudo se nega também a possibilidade de trabalhar pela transformação de algo1.

Esta segunda maneira de aceitar o que existe (de apoiá-lo indiretamente, através de sua negação aparente) é perfeitamente compatível com uma postura de protesto resignado nos marcos do intimismo à sombra do poder.

05. E você? O que você faria?

Aqui chegamos ao ponto que motivou o início desta pequena série de textos... Eles vêm sendo publicados entre dois “grandes eventos”, intimamente relacionados e que dizem muito sobre a vida no Rio de Janeiro e no Brasil de hoje: a Copa do Mundo, prestes a começar, e a remoção da Favela da Telerj, da qual imagino que quem está lendo este texto ainda se lembre.

A questão é: como a “opinião pública” brasileira se tem posicionado sobre os acontecimentos em questão? Quem tem se colocado contra as barbaridades ora em curso? Quem compreendeu a urgência da situação? E mais: quem se diz contra é consequente com essa posição? Como vai, no Brasil de hoje, o velho intimismo à sombra do poder reatualizado pela ditadura empresarial-militar? Teria ele algo a ver com Copas e Olimpíadas?

Com estas perguntas se encerra a pequena série “O que você faria?”. Com elas, com o poema abaixo (não por acaso, exatamente de 1964) e com esta última pergunta: e você? O que você está fazendo agora?

INQUISITORIAL
(José Carlos Capinam – 1964)

I
Cúmplices da comoção moderna,
Galhofamos no teatro e no cinema
Ante o III Reich.

Galhofamos do desencontro
Entre discurso e realidade.

(Mas a perda do sincrônico
Se dá por nossa memória
Ou pelo dedo de Chaplin.

Ao tempo real, eram ambos coerentes:
Discurso e realidade.)

II
Quando um soldado capenga
Surgir em cena,
Não compreenda, e se compreender,
Não ria – porque não estamos
Ante um soldado nem ante o III Reich.

Quando um tanque se precipitar
Da ponte,
Não cante, e se cantar,
Não dance – porque não estamos
Ante a firmeza do tanque e a verdadeira ponte.

E quando um gueto se sublevar
E for morto heroicamente,
Não comente, e se comentar,
Não glorifique – porque não houve heróis,
Só houve homens no III Reich.

E, ademais, não se diga
Indigno o III Reich.
Porque não houve indignidades,
Só houve o tempo.
O tempo não tem adjetivos: é ou foi e faz-se.

III
Agora, amadureço a questão.

Nós prontamente solidários com a memória
(Compromisso sem perigos)
E o desespero irreparável dos mortos,
Se àquele tempo presentes e vivos,

Como veríamos o III Reich?

IV
(Para responder, não te transfiras
A cômodo, como agora,
Busca adquirir a cidadania alemã
E depois, estável, responde:

Ao curso de fuzis e verdades da época
considerando o risco de tua estabilidade –
Operário ou proprietário da Mercedes Benz,

O que farias no III Reich?)

V
Em nós o tempo é o mais humano,
E hoje de homem não temos senão o tempo ganho,
Fração de um tempo maior
Que a vagar se compõe, tão árduo.

Por isso pergunto:
Em todos os tribunais passados,
Que lado ocuparíamos

Pois que somos mas não somos ante o tempo
E também seus acidentes
Históricos e geográficos,
As estações a carência e os meses?

Se ainda fosse abril,
O que faríamos sendo em tempo do III Reich?

VI
Agora que estimamos
A incerteza
Ante o III Reich;

Agora que estimamos
Menos perigosa
A participação da memória

E muito menos eficaz;
Pergunto: tu, ante o presente,
Como te defines ao que será passado?

Há urgência de resposta, antes que a noite chegue.

Carregarás fardos para evitar
(Repara que o rio corre e a noite vem como onda)
Ou deixarás que apenas sejamos o tempo
E irreparável memória?

VII
Como existir e ser ante o III Reich
E qualquer um outro tempo de inquisição?

Diante escolha dada sem senões:
Vida ou absolutamente nada,
O nada mais roído,
O nada mais raspado,
Sem pontes ou rios, sem rios, sem pontes
Às fugas e navegações?

Ao dizermos sim, estamos com eles.
Não, e nos perderiam de tudo, mesmo de nossa intimidade,
E, na praça,
Sorririam de nossa solidão, nossa extrema solidão, nossa solidão na morte,
Consequência deste caminho de contradição.

(Quando semelhante escolha
Nos vierem pedir,
Que coisa diremos
Se só temos a vida,
A necessidade de preservá-la
E a compulsão de defini-la?

O que agir, se o que agimos
Nos define a vida
E a consciência
Desta mesma vida
Ante seus momentos
E ela mesma ainda?)

Ah, como louvamos o tempo
Que nos põe distantes,
Só importando em memória
A nossa escolha e saída.

VIII
(Como nenhum roteiro são
As navegações do barco,

Não há previsões que possam conceber o que seja
Anterior ao seu ato.

Qual a determinação da cidade
E do caminho ideal de abordagem

Não evitam a pedra
Calmaria e tempestade.

Portanto, ainda mais se complica a questão
Do que ser ante o III Reich.)

IX
Nada a perguntar
Se esquemática, fatal e somente

Judeu fosse judeu
E operário, operário.

E não como são:
Eles e, inclusive, o III Reich.

(Ao existir nos pomos, às vezes,
Cúmplices da contradição.

De outra forma, nada seria dramático,
A simples previsão do roteiro salvaria o barco.)

X
Pois, sendo judeu ou operário
O que fazer ante o III Reich?

Se pretensa vinculação mais ampla, de homem,
Te impede de responder

Com vinculação real de raça ou classe,
Onde não se é bom ou mau homem,

Mas mau negociante ou bom operário,
Lembra-te do acordo de ato e consciência que possui o III Reich.

Então, como te farias um homem
Ante o III Reich?

(Isto não é tão simples como aplaudir ou chorar,
Comprometido com Chaplin.)

XI
Tenho medo da imaginação
E de todas as travessias
Onde me possa superar a correnteza do rio.
Sinto medo de mim solto às divagações,
Onde não me determino.
(Mas que faria se já não fosse outono
E já não estivesse na outra margem do rio?)

Dou graças aos que passaram
E submergiram.  Bendigo os que se comprometeram
Com o erro, para que eu não tivesse
De vacilar quanto ao lugar de vau
Para atravessar este rio
Da existência, tão largo, tão humano e extensamente largo,

E arrancar o fruto do outro lado.

XII
Não quis dizer que a tudo justifica o tempo:
Fora, fazê-lo, assaz temerário.
Nem tentei um poema para desesperar:
Diverge o intento.  Quero dizer que o tempo não reflui
E inexiste chance de se provar a resposta
Do que seríamos ante o III Reich, mãos de SS ou meras mãos de inocente,
Participação mais grave que a dos que fizeram por bom senso
Ou interesse indefensável.

Escrevi para então,
Aos que dizem não posso, tenho limitações,
Posso ser posto de lado, à margem de direitos e comodidades,
Ou aos que têm dúvida de que a mudança é ótima.
Escrevi aos lúcidos, aos que mais rápido entendem o símbolo
E outra qualquer linguagem, aos que, entretanto, calam.
Acuso este bom senso de salvar-se
Roubando balsas ao barco
Que se tomou para viagem.

Mas tenho certeza de que, se apenas
Esses existissem, ainda amargaríamos o III Reich,
Como fruto constante
Na boca:

Fruto que não se come nem se joga fora.

Escrevo e sei que a todo tempo houve outros,
Com estes aprendo e me comovo,
E mesmo que soçobre o barco num relativo naufrágio,
Me mantenho atento às perseguições do porto.




1 Um exemplo banal: alguém vê a polícia, na televisão, removendo com brutalidade a Favela da Telerj (ou Pinheirinhos, ou tantas...) e comenta algo como “é sempre a mesma coisa, esta maldade do ser humano (ou ‘do brasileiro’) me deixa realmente triste”. Essa pessoa, por mais que esteja negando subjetivamente o existente (“isto me faz mal, me deixa triste”), o está aceitando como natural (“sempre foi assim, assim é, e assim sempre será”, “os brasileiros são assim mesmo” e, portanto, não há o que fazer...). Um caso de apologia indireta do existente em um produto cultural brasileiro recente é o do filme Tropa de Elite 2 (a culpa é “do sistema” ou “dos políticos”, e como eles “sempre são corruptos” só resta lamentar). Muitos casos podem ser encontrados na produção cultural brasileira posterior ao AI-5.